Era uma vez, na vasta terra de Serenara, onde planícies douradas encontravam florestas verde-escuras e antigas montanhas surgiam ao longe, vivia uma esperta gata doméstica chamada Meeka. Meeka não era como os outros gatos—enquanto os outros se espreguiçavam ao sol e perseguiam borboletas, Meeka lia pergaminhos antigos, aprendia a língua das florestas e explorava cada caminho escondido na próxima Floresta Sussurrante.
Não muito longe da aldeia de Meeka, no coração da grande savana, reinava um poderoso leão chamado Baran. Com uma juba como fogo ardente e um rugido que ecoava pelos vales, Baran era o Rei das Feras. Nobre e forte, ele se afastara de seus súditos, passando a maior parte do tempo nos planaltos das Colinas Ember.
Sem que Meeka ou Baran soubessem, o perigo se agitava nas profundezas da Floresta Sombria, onde a escuridão grudava às árvores como teias antigas e até o vento se receava. Ali, um curandeiro outrora bondoso chamado Varek fora amaldiçoado por sua própria inveja. Há muito tempo, Varek foi rejeitado pelos espíritos da floresta ao tentar roubar seus segredos. Sua punição: viver para sempre como lobisomem, transformando-se a cada noite e sedento por medo.
A cada lua cheia, Varek descia às terras vizinhas, assustando os animais, destruindo casas e deixando apenas uivos sombrios. Os aldeões da casa de Meeka o temiam, e até o orgulhoso leão Baran o considerava apenas uma história de fantasmas. Mas Meeka sabia que os contos eram verdadeiros.

Chegou ao palácio de Baran ao pôr do sol, onde os guardas zombaram da pequena gata.
“Exijo audiência com o Rei Leão!” declarou Meeka.
Eles riram, mas a notícia da corajosa gatinha chegou até Baran, que, curioso, permitiu que ela entrasse em seu salão.
“Você viajou todo esse caminho por quê, pequena?” perguntou Baran, com mistura de divertimento e cansaço.

Baran riu. “Você acredita em contos de fadas, gato. Lobisomens não existem—apenas covardes culpando bestas por seus medos.”
“Mas eu vi os sinais,” argumentou Meeka. “Árvores arranhadas, criaturas desaparecidas, rastros que mudam de humano para fera. Não peço que acredite, apenas que venha e veja.”
Baran suspirou. Ele não saía de seu domínio há anos. Mas havia algo nos olhos de Meeka—uma centelha de coragem e verdade—que despertou algo esquecido em seu coração.
“Muito bem,” disse ele, levantando-se. “Amanhã, partimos.”

Ao chegarem à borda da Floresta Sombria, o ar tornou-se denso e frio. Árvores curvavam-se de maneira estranha e o céu parecia mais escuro, embora o sol ainda brilhasse.
“Hoje é lua cheia,” sussurrou Meeka. “Ele virá.”
Acamparam perto de uma pequena nascente e aguardaram. A noite caiu como uma cortina, e o mundo tornou-se prateado. De repente, os uivos começaram—longos, tristes e próximos.
Das sombras, surgiu a besta—alta como um urso, com pelo negro como a noite, olhos brilhando como brasas e garras que rasgavam a terra de fome.

Lembrando-se de seus pergaminhos, Meeka tirou um saco de sálvia e sal lunar. Correu para uma clareira, desenhando um círculo de símbolos enquanto Baran e Varek lutavam.
“Tragam-no aqui!” gritou.
Baran fingiu fraqueza, atraindo o lobisomem para seguir. Quando Varek avançou, entrou no círculo—e Meeka lançou o último punhado de sal no ar. Os símbolos brilharam, e um grande vento uivou entre as árvores.
Varek gritou—um som profundo e triste, cheio de pesar. Lentamente, a besta caiu de joelhos. O pelo recuou, as garras encolheram, e em instantes, um homem frágil jazia no centro, chorando baixinho.

Baran olhou para Meeka, que assentiu.
“Ele foi amaldiçoado por suas próprias escolhas, mas até maldições podem ser quebradas.”
Baran se voltou para o homem. “Deixe esta floresta. Comece de novo. Não machuque mais ninguém.”
Varek assentiu e se afastou mancando, desaparecendo na névoa.

Ele criou um conselho onde todas as criaturas podiam falar, e Meeka foi nomeada a primeira Alta Conselheira das Terras Selvagens.
E embora a floresta ainda guardasse segredos, a paz retornou a Serenara, onde um gato e um leão enfrentaram as trevas—e venceram.